sábado, 26 de maio de 2012

Sentimentalidades Patrícias

Sentimentalidades Patrícias - Parte I

Do outro lado do Oceano me encontro. É tanto mar que me afasta de mim mesmo, que nem sei o que fazer com o Atlântico diante dos meus olhos. Na praia, de pé, fiquei a mirar o horizonte procurando um ponto de referência de minha trajetória até aqui. Como vim parar neste chão de meu Deus? O turbilhão de ideias voltou a me tragar na loucura de sentimentos ermos, de sentidos complexos, de sentimentalidades patrícias. Fitar os olhos sobre tanta água, e saber que lá do outro lado houve um homem ou um menino que se refugiou distante da terra natal, mas não conseguiu escapar de si mesmo. Não sei se estou mais aqui ou lá. Só sei que agora tudo é passado. Entretanto, se eu pudesse cruzar a linha do tempo, e retornasse...

O vazio costuma deixar oco o meu peito. O mesmo não acontece com a cabeça. Esta está sempre cheia. Talvez, coubessem todos os Oceanos dentro e sobre ela. Logo eu, que gosto tanto da terra, da suposta segurança da firmeza dura sob os pés. Tento caminhar sobre o solo que eu escolhi. De repente, nossas escolhas nem fazem diferença quando a terra nos rejeita ou o contrário disto. Já cogito da dúvida. Não sei mais se fui escolhido ou se escolhi. Todavía, há uma certeza, o da rejeição. Sei que fui rejeitado em algum momento, expulso das redondezas do Paraíso, e o exílio de mim mesmo se fez consequente. É uma melancolia patética, esta a que me envolve. Para que serve? Não sei onde chegar direito. A tal felicidade confunde os caminhos.

Dezembro costuma fazer isso com as pessoas, a gente apressa o passo para acabar um não sei quê, além de querer começar algo que cogita ser redentor para um final feliz folhetinesco. Não há leitor que dê conta de bilhões de personagens tentando se destacar na trama do Deus autor, que escreve certo e supostamente errado por linhas invisíveis feito Ele, sem falar pelas tortas. A poucos dias da virada de ano, de mais um algarismo no calendário, é impossível não pensar mais uma vez no tempo que me resta de vida, nas coisas que eu fiz ou deixei de cumprir, de quantas fugas e de quantas batalhas inglórias me envolvi.

Agora, há mais esta data de aniversário se aproximando, e tudo isso me angustia, e tudo isso me aborrece. Olho para o espelho de minha memória e calculo 53 anos de existência, 53 anos de resistência e insistência. Para que tanto, se a felicidade desviou as minhas sendas? Outra crise de idade é a puta que me pariu, e desta vez com rugas e cabelos quase inteiramente brancos. Fiquei velho por fora e por dentro.

Resolvi voltar para casa, e olhar mais uma vez o cartão de natal sobre a mesa que deixei aberto junto ao envelope selado no Brasil, uns dez dias antes. Ainda não havia prestado atenção na data, pois me desliguei do tempo e dos calendários nas últimas décadas. Não me esqueci que sou brasileiro, mas isso acontece de vez em quando. Sou sempre estrangeiro, esteja onde estiver, esta é a sensação que tenho, o de um forasteiro em movimento, em trilhas, carregando o mundo nas costas, um Atlas com os ombros arriados porque o peso é tamanho! Daqui de Portugal, cheguei a avistar minha pátria, minha rua e casa, mas despistei, esfreguei os olhos, e tratei de adiar a lembrança pelo maior prazo que pudesse estender. Acho que consegui quase sempre.

Contudo, hoje, esta mensagem mexeu com algo dentro de mim que não supunha mais existir, não lembrava ou nem imaginava recordar. As sentimentalidades patrícias nos pregam peças. Fui surpreendido com a mensagem da namoradinha de adolescência, Valeriana, tão bela e estranha. Sabe Deus como ela descobrira meu endereço. Ao dirigir-se a mim, mais de trinta e tantos anos depois, após um silêncio que atravessou o século e o milênio, talvez, sem ela imaginar o quanto da minha memória foi afetada, me vi outra vez, escarafunchando as coisas que foram trancafiadas voluntária e involuntariamente no peito. Quanto vale ou valeria isso, Valeriana? Ainda não sei. Talvez, nunca saiba. O texto escrito por ela era enxuto, mas com as típicas sutilezas e cordialidades femininas, dizia: “Caro Oswaldo, não sei exatamente o tempo que não nos falamos. Soube que está vivendo em Lisboa, e que se estabilizou aí há muitos anos. Lembro-me de seu aniversário no dia 14 de dezembro. Como já está próximo, aproveito para cumprimentá-lo por mais um ano de vida. Desejo ainda, um Feliz Natal e um próspero Ano Novo. Mande notícias quando puder, se assim desejar. O meu endereço está aí no envelope, e meu telefone é 6682-1986. Ainda vivo em São Luis. Ficarei feliz se tiver notícias tuas. Valeriana"


Um dia, quem sabe, surgirá uma resposta para ela. Já para mim, ficam os questionamentos.

Sentimentalidades Patrícias - Parte II

Dias se passaram desde a chegada da correspondência de Valeriana. A rotina de Oswaldo não mudou em absolutamente nada. Ocupava-se das atividades domésticas que o faziam anestesiar certos desconfortos de alma, cuidava do gato cinzento sem nome e sem caráter. O bichano distraía-o de algumas angústias e tristezas teimosas já incorporadas no signficado de seu existir.

Depois de faxinas mínimas ou profundas, Oswaldo mergulhava na leitura e releitura de clássicos, das pseudonovidades do mercado editorial voltado para a filosofia. Com cerca de 25 anos dedicados ao magistério, ele já tentara desistir algumas vezes da carreira de professor universitário. Porém, o tempo foi passando e moldando as vontades pessoais, transformando-as em necessidade de sobrevivência, e pagamento de contas cada vez mais caras, apesar de não se entregar às fogueiras do consumismo. A caristia tomava conta mesmo de tudo, e a vida quase é sempre impagável.

A casa calada nos arredores de Lisboa era refúgio daquele homem sem amigos,sem diálogos longos com estranhos ou conhecidos. Aprendeu a ouvir a própria voz internamente em muitas falas dele para consigo mesmo. O pensamento não cessava o exercício de maquinar coisas, de rir e chorar de si mesmo, em delírios amalgamados aos pensamentos de amor e ódio, vida e morte. O suicídio esteve em seus planos nos últimos anos de auto-exílio. Frenquentava de tempos em tempos o Cabo da Roca, a chamada ponta da Europa. Ali,avistava seus penhascos e falésias, o mar agitado, e erguido, resistia aos fortes ventos do litoral. Pensava em ser alçado aos céus por meio da ventania. Imaginava que pudesse voar sem asas sobre o Atlântico e pousasse seguro em São Luís, minutos depois. Todavía, cogitava da hipótese de não concluir o trajeto, e desistir, para jogar-se nas mais abissais profundezas das águas e desaparecer de uma vez. Às vésperas de completar 53 anos, começou a pensar na realização desse angustiante, porém aliviador desejo. — Será que só os infelizes pensam em morrer? — arguía a si próprio. Naquele instante, não escutou resposta alguma.

Entretido em suas tempestades cerebrais e auto-vitimação repetitiva, o pedaço de papel branco com bordas verdes e amarelas fitou-o. Sentiu o chamado de Valeriana para que atentasse a ela.

Oswaldo começou a falar em voz alta desta vez. Indagou a ex-namorada de adolescência como se ela presente estivesse. Ele não hesitou. Logo de cara, perguntou que diabos significava aquela correspondência, mais de três décadas depois de seu afastamento. Quis saber também que motivos existiriam para que ela se lembrasse dele, se no passado o rejeitara.

Na época das descobertas e dos desconfortos e revoluções comuns à idade, ele sofreu o desprezo de um amor não correspondido. Até hoje, sobreviveu à Valeriana, mas também à outras mulheres nomináveis e inomináveis. Todas deveriam ser olvidadas. Ele preferia assim. Mas, com a chegada desse cartão, sua vontade não foi lá tão respeitada. Paciência. A maioria de suas vontades nunca foi.

De repente, cantarolou o fado favorito na voz de Amália Rodrigues "Foi por vontade de Deus que eu vivo nesta ansiedade, que todos os ais são meus, que toda é a minha saudade, foi por vontade de Deus. Que estranha forma de vida..." Interrompeu o murmúrio melódico, olhou para o envelope chegado do Brasil, e sem pensar ainda mais, pegou papel em branco e caneta, e começou a escrever uma frase. Seria o início da resposta para Valeriana. Formal e seco, ditou:

"Sra. Valeriana, peço que nunca mais volte a me escrever. Não me interessa nada que venha de São Luis, e nisto inclui-se a senhora. Não quero ser importunado novamente. Passar bem, Oswaldo".

Ao findar o texto curto, leu e releu. Dobrou o papel e o pôs dentro de um envelope. Anotou o campo do destinatário com o endereço indicado da carta que recebeu de São Luís. Colocou os dois envelopes um do lado do outro. Mirou-os por alguns segundos.

Começara a imaginar que estivesse ao lado de Valeriana em forma de papel. Talvez, ambos ou todos os seres ditos humanos não passassem de papel. Cogitou de quem vive a eternidade de páginas e páginas em branco, sem nenhuma história para contar. Sentiu-se triste. Não sabia que rumo dar à sua própria história pessoal nessa altura da vida. O telefone tocou. Sem querer, Oswaldo atendeu.

— Alô.
— Por favor, o Oswaldo Negreiros está?
— Sim, sou eu.
— Olá, Oswaldo. Aqui quem fala é Valeriana, de São Luís. Como você está?

Tomado pela surpresa, Oswaldo emudeceu.

Sentimentalidades Patrícias - Parte III

O silêncio precisa ser rompido, cedo ou tarde, mesmo que isso nos contrarie. Um dia, a vida cobra alguma resposta pelas tantas e tantas interrogações que fazemos ou que nos fazem. Até que sepultura mais próxima ou distante poderíamos adiar tudo aquilo que nos desagrada? A voz da mulher ao telefone não era a mesma da menina adolescente que ele conheceu no passado. Aquela voz não só transmitia maturidade, mas algum pesar e amargura. Certamente, não os mesmos sentidos por ele. É que cada um tem seu próprio código e quotas de desgraças personalizados.

Oswaldo disse a Valeriana, gentil e dissimulado, tentando evitar ainda maior invasão de privacidade, que estava bem. Falou que ficou muito surpreso pelo cartão de aniversário e fim de ano,e bem mais agora com o telefonema da conterrânea. Ela, delicadamente, desculpou-se caso estivesse importunando-o, mas é que fazia muitos anos que gostaria de revê-lo para que pudessem conversar. Contou que conseguiu endereço e telefone com sua prima Efigênia que vivia em Alcântara, e resolveu arriscar. Nem ele, nem ela, nem ninguém têm a exata descrição dos tantos riscos que corremos para poder viver a vida. Seja esta como for, tudo é perigo.

Valeriana apressousse em dizer que tinha muito boas recordações de sua primeira juventude, naqueles poucos meses em que conviveram próximos. Ela contou que comemorara recentemente seu aniversário de 50 anos. Citou que passou muito bem ao lado dos três filhos e do marido, um engenheiro de Belo Horizonte. Não poupou elogios ao companheiro e à família que construiu.

Por cerca de doze minutos, talvez um pouco mais, Valeriana se pois a falar quase ininterruptamente. Isto significou uma semi-eternidade para Oswaldo. Ela ressaltou que nunca saiu de São Luis, que não gostava de viajar, que temia as estradas brasileiras, e que sentia verdadeiro pavor de aviões, e que o mar era para poucos, e neste seleto grupo ela não estava incluída. Se era impedida de viajar devido aos seus temores, nada a impedia de viajar através da imaginação e de fantasias.

—Sou muito sonhadora e romântica. Não sou mais jovem e bela, mas ainda não perdi o encanto pela vida — frisou.

A última declaração da mulher urgente deixou Oswaldo ainda mais estupefato.

— Estou morrendo, Oswaldo. Tenho uma grave doença, aquele câncer egoísta e tirano que não negocia, e rouba quase toda esperança —, completou.

Quando a vida está oficialmente ameaçada, não há como descrever o horror do silêncio.
A Oswaldo restou o lugar comum. Disse que lamentava por ela. Pronunciou algo que não sentia verdadeiramente. Por algum momento, invejou a morte anunciada de Valeriana, desejou o mesmo para ele. Queria que fosse rápido e fulminante, mas se tivesse que ser um descontrole celular convertido em tumores, que assim fosse. Partir parecia a melhor saída para ele. Não tinha grandes razões para estar de pé e consciente. Todavía, sabe-se lá quando exatamente essa partida se concretiza.

— Oswaldo, sei que não fui boa para você. Agi mal e tolamente, te desprezei no passado. Eu era uma menina muito imatura. Gostaria que me perdoasse. Eu precisava te dizer isso, pois a vida me ensinou outros valores. Creio que aprendi, embora tardiamente, talvez.

— Valeriana, confesso que fiquei magoado e triste. Entretanto, éramos muito jovens. Erramos o que havia para errar. A vida não nos escolheu, creio. Apesar de sua enfermidade, você demonstra ter sido feliz. Não estou certo que se estivéssemos juntos, poderia oferecer a você essa tal felicidade. Não há o que perdoar, mas se necessita disso, não serei mais egoísta do que tenho sido. Tens o perdão.

Um agradecimento se revelou da parte dela, acompanhado de mais uma revelação: um outro pedido, o último, segundo ela.

— Você costumava me escrever poemas e cartinhas. Guardei todos por muitos anos. Lia e relia de vez em quando. Isso me fazia sentir querida e amada. Por um descuido, todos foram parar no lixo, mas juro que não foi minha culpa. Senti uma tristeza profunda quando perdi aqueles textos. Por isso, gostaria de saber se você seria capaz de me escrever algum verso novamente, mesmo que fosse curto. Eu queria me sentir novamente com 14 anos, e ter de volta uma lembrança sua. Não voltarei a te procurar, Oswaldo, pois sei que não pertenço ao seu mundo. Porém, caso possa me atender, ficarei muito feliz e grata. Deixo para você qualquer decisão. Seja esta qual for, acatarei. Te envio um abraço, desejando tudo de melhor nesta vida. Adeus, Oswaldo — encerrou.

Há ocasiões em que o silêncio se faz demasiadamente necessário. O mesmo não pode-se dizer da dúvida.

Sentimentalidades Patrícias - Parte IV

O sol está morno faz dias. Os pensamentos idem. Às vezes, prefiro que eles agonizem, pois de alguma forma, reagem à vida ou vice-versa. Estar frio ou quente é melhor que estar morno. Melhor as tempestades do que a seca insólita. As tragédias e as ameaças de vida trazem algum tipo de emoção, e consequentemente, a reação. Eu estou morno, e não é das melhores esta sensação.

No meu mormaço de estranhezas sentimentais, fiquei a pensar o que eu costumava escrever para Valeriana quando tomado por reações químicas, comuns aos que se apaixonam e se encantam pelo rosto, pelo corpo, pela vida alheios.

Não me lembro direito o que eu disse enquanto estive tomado por aquelas reações dos que amam ou acreditam no amor. Sei que existiram coisas, sonhos, quimeras, mas não os sinto mais. Não que eu saiba. É curioso ter sentido algo, lembrar-se que houve sentimento e não saber descrever o que era, o que foi, o que é. O amor, se é que existe, também se perde, apaga a chama. Uma pena. Sinto-me como uma vela apagada. Queria ser fogo, invejo-o.

E se a esperança voltasse? E se ela brotasse de algum canto de mim? E se a esperança retornasse para que eu pudesse ter as noites de sonhos dos meninos e meninas, dos moços e moças? Por que eu envelheci? Minhas mãos, pele e ideias ficaram velhos. Meus cabelos me acusam todo o tempo.

Seria bom se a esperança aparecesse, e que nunca mais fosse embora. Eu invejo aqueles que esperam por melhores dias. Também invejo Valeriana com sua trajetória de conquistas, afetos de marido e filhos, e que tem dias contados para estar viva. Pode parecer horrível, mas a invejo porque ela parece ter tudo aquilo que aprendemos a valorizar.

E se milagres acontecessem? Tantos afirmam que milagres existem! E se algum milagre existir para mim, para ela, para nós? Eu queria ter um novo sonho, mas faz tempo que os sonhos se foram...não deveriam ter ido embora de mim.

Sentimentalidades Patrícias - Parte V

Sentado à escrivaninha, diante da janela que dava para o jardim, desta vez, o sol não apareceu. O céu cinzento de uma tarde muito fria trouxe alguma vontade de ocupação. O rádio foi sintonizado na estação de música erudita. Assim que acertou a frequência, alguma composição de Franz Schubert soou. Oswaldo gostava desse romântico austríaco de sonatas e serenatas. Chegou até a cantarolar sobre a melodia de uma canção que não sabia o título, lá lá lá ri, lá lá la rá...

Sabe-se lá quando ele teria cantarolado a última vez. Não se deu conta desse momento raro. A vida parece valer a pena diante de raridades. Sentiu vontade de escrever espontaneamente sem o rigor das obrigações de professor.

O bloco de papel em branco e a caneta de tinta preta estavam ali convidando-o a traduzir pensamentos (in)conscientes. Olhou através da vidraça, e imaginou novamente o Oceano de navegantes loucos e suicidas.

Se tivesse que escrever algo para Valeriana, o que poderia fazer? Onde encontrar dentro de si um garoto de 17 anos? De qual lugar da memória se pode resgatá-lo? Como seriam os dois naquela época? — pensou.

Ela era tímida, oprimida, virgem, menina toda vida. Ele era tímido, oprimido e virgem quase toda vida. Nada sabiam do amor, nem de todos os obstáculos do amor que independem da idade dos casais.

Oswaldo puxou pela memória do afeto o que gostava de fazer aos dezessete anos. Imaginava o amor eterno ao lado de Valeriana. A eternidade desse sentimento não sobreviveu meio ano, talvez bem menos.

Ele gostava de escrever bilhetes, cartinhas apaixonadas, de filmes clássicos e românticos, de ouvir a grega Nana Mouskouri, de ler Leon Tolstoi e tudo vindo da Rússia, de sonhar...

Nossa, quanto tempo é preciso para sonhar, manter-se sonhando dormindo ou acordado, não perder o sonho de vista? Deixar de sonhar é morte anunciada na certa, e sem sonhos Oswaldo se condenara. Neste momento, perguntou a si mesmo o que não gostava aos dezessete. A resposta: a própria aparência física, a pobreza, as dúvidas, o amor não correspondido pela ruas de São Luis.


São Luis de mim

"Acho que São Luis
nunca me quis.
O amor nunca
me quis,
A paz de espírito
nunca me quis,
entretanto,
eu quis o amor,
quis a paz de espírito,
quis São Luis
para ser feliz"


*****

Quando se é metido a poeta, acrósticos quase sempre são adotados. Oswaldo gostava de brincar com as letras que compunham o nome da amada Valeriana.

Valeriana vertical

"Vivi um amor
Adolescente eu era,
Ludibriei meu eu,
Eu fingi quimeras
Roubei versos
Idiotas e tontos
Aqueles mais ridículos
Na esperança de ganhar
Amor, mais amor"

*****

Sentir falta de uma fase da vida pode ser saudável, quem sabe. Saudável e saudade teriam a mesma raiz na língua portuguesa?

Saudosidades


“Sinto saudade
de mim e da minha juventude.
Não sabia que viver
era incessante inquietude.
Não sabia que a felicidade
leva uma eternidade
para alcançar.
Eu, Maranhão, o Mar
e amar a menina que não
existe mais.
Inalcansáveis, os
rios de janeiro
a dezembro eu
já nem penso mais.
Em Lisboa, eu
exerço uma saudade
de algo que nem
sei se existe mais.
Mar, mar, mar..."

*****

Sem perceber, Oswaldo voltara à poesia. Esqueceu o quão aliviador é agrupar palavras e pensamentos na folha branca, ideias desconexas como a própria existência.

Amor não tem jeito


"Eu amei do meu jeito,
Amei como pude.
Rasguei o meu peito
e afundei no açude.
Ácido, amargo, corrosivo
sentimento.
Doce, salgado,desconfortantes
momentos.
O amor tem muitos sabores
para rimar com minhas dores"

*****

Pátria perdida

"O amor é a minha pátria
que nunca tive.
Se tive, esqueci.
Se não esqueci, tentei.
Se não tentei, quis.
Se não quis, encontrei.
Se não encontrei,imaginei.
Se não imaginei, sonhei.
Se não sonhei, ignorei.
Se não ignorei, aceitei
o tempo que não se vê,
que não se sente,
mas que dizem existir
há tempos..."

*****

Acordado

"E se eu dormisse no seu colo,
e ficasse a noite inteira,
eu seria mais feliz que ontem...

Se eu acordasse no seu colo,
e ficasse a vida inteira,
eu seria mais feliz que hoje..."

*****

Nua e crua

"Nunca te vi nua,
dizem que a verdade se despe,
a mentira se enfeita.

Sempre te vi crua,
falam que amor tempera vida,
a inveja enfeia.

Despe e come a verdade,
mas delicie-se com o sonho
de que nem tudo é verdade, nem mentira

Eu sou homem, mulher,
menino, menina, bicho, verme
e o que mais vier..."

*****

Amor sem nomes

Amor, como se chama
Eva, Lilith, Ana
Sarah, Mirthes, Luciana
Andrea, Patrícia, Juliana?

Coração, como se inflama
Gilda, Elza, Doriana
Regina, Esther, Tatiana?

Dor, como se engana
Elizabeth, Rute, Mariana
Maura, Helena, Suzana?

Que importa nome e sexo,
se é simples ou complexo,
a puta, a santa, a doidivana?

Nao quero métrica para seu nome,
não quero métrica,
não quero,
não..."

*****

Amor grego

"Outro dia ouvi Nana, a grega
Somente amor não bastou
Foi preciso algo de trágico
Nem todo sentimento é mágico
A tristeza fez em mim morada,
a melancolia me impregnou,
Faz tempo não tenho namorada,
para longe o desejo rumou
E eu continuo nessa solidão
sem nada mais esperar..."

*****

Dezessete nãos


"Não sei mais ter dezessete anos,
volver a los diecisiete ni con
Violeta Parra, ni Mercedes Soza...
Eu estou brotando,
mas a semente não vinga,
e a vontade de voltar pinga,
pinga, pinga lentamente
sobre o oceano de mim..."

*****

Astrológico que não

"Eu estou tão Sol
que nem Lua quero mais.
Vênus sabe de mim, e
Saturno corre atrás

Fiquei assim tão Júpiter
depois me vi Netuno em nós,
Martirizei em Marte de amores,
em Urano de dissabores

Explodo em Plutão,
tão raivoso Mercúrio,
Na Terra está meu coração,
já minha alma no Espaço escuro..."

*****
Fronteiras

"Não sei mais de mim,
muito menos do tempo,
não sei de nada, nunca soube.

Quis ser Brasil no afeto,
Portugal em meu peito
mal se coube.

Não sei se quero saber
de mim, de ti, dos outros,
das desgraças, dos tesouros

Estou só em casa, descasado
desgraçado, destinado
a navegar no encouraçado

Sinto que vou afogar,
mergulhar até o fundo
até o fim do mundo...cá estou eu"

*****

Mediocridade


"Versos medíocres,
medíocres versos,
para quê existem?

É tudo sem valor,
desvalorizo palavras,
mas elas insistem..."

*****
Sem título, sem nada

"Hoje não me sinto inspirado,
feliz nunca fui, nem expirado.
Transpiro no vazio..."

*****

Negativas

"Eu não te quero, Valeriana
Não quero cartas, telefonemas
Nem ilusões ou teoremas.

Não sei por quê vieste a mim
a estrada já estava assim,
solitária, vazia sem ti aqui

Meu caminho segue até
depois do penhasco,
antes eu devo despencar

Quando eu sucumbir
a toda sorte não serei eu,
nem você será meu mar..."

*****
Crueldade

"Percebo que estou mais cruel,
e você crua, sem nudez,
sem carne, sem tintas, sem papel

Estou tão mau, carrasco,
e você musa sem querer, sem entender
o que se passa em meu céu

Meu firmamento é cinza chumbo,
o coração para na negra noite
de um vil varão moribundo...

*****

Antes de escrever o décimo sétimo poema, entre dias e noites atropelados pelo sono, delírio, copos incontáveis de vinho, a viagem ao ego de Oswaldo parecia não querer terminar. Não se deu conta que dezembro caminhava para o fim, o ano caminhava para o fim, a vida rumava a mesma trilha finita. Sendo assim, sua aventura nostálgica, ora leve, ora amargurada, também deveria acabar. Valeriana iria acabar. Ele também.

Diante de um tempo tão suspeito, verteu-se em realidade. O que fazer com essas combinações de versos e desabafo? Oswaldo não sabia que importância teria sua escrita diante de uma suposta morte da amada. Ele não se deu conta de ter pronunciado essa palavra "amada". O pensamento o traiu. Quando se ama alguém, não se sabe se o sentimento consegue entender a diferença de passado, presente e futuro. Em qualquer época, felicidade é bem-vinda.

****
Limite

"Se eu morresse agora
e não dissesse seu nome,
morreria ainda mais.

Se não pensasse em você,
amada, existir não
faria sentido.

Estou dolorido desde
o primeiro instante que te vi.
Não imaginava que afeto
e dor dessem as mãos.

Se eu morresse agora,
não faria falta o coração,
nem a alma, nem o canto
silenciado na imensidão.

Morro só".

Sentimentalidades Patrícias - Epílogo

Amanheceu do lado de cá do Oceano. Era o último dia do ano. Há uma significativa distância entre o primeiro e o último dia de nossas vidas, não importando quantos eles sejam.

Quando se nasce, inconscientemente a esperança e o medo começam a operar em nossa existência. Esperança, por uma eternidade de realizações felizes. Medo, por não alcançá-las e por ser abatido por algum inimigo. A inimizade também vem em forma de vírus, de um rival ou da inadiável morte.

Do lado de lá do Oceano, o céu desabava em lágrimas e enxurradas, tempestade. Não se sabe se São Luis chorava a perda de Valeriana. Entretanto, a impressão é que os deuses decidiram soar gravemente os tambores de lá, os tambores às vezes malditos. Oswaldo decidira não querer saber como e quando Valeriana se foi, se é que se foi. Se ela ressurgir outra vez, quem saberá o que fazer? Ele não sabia.

No derradeiro dia do ano, Oswaldo quis ir ao Cabo da Roca. Por anos e anos no seu exílio lusitano, ele esteve ali, buscando algo na paisagem, sondando algo dentro de si. Não achou muito além do vazio, angústia e uma saudade inclassificável.
O vento soprava forte no litoral. Parecia que as falésias se moviam para lá e para cá, Portugal prestes a ruir dentro do seu peito.

Nas mãos, Oswaldo trazia o caderno com suas anotações poéticas, recentemente escritas em meio à bebedeira e à vontade de amar a vida, amar alguém, amar o gato cinza, amar o passado, amar sua trajetória, amar a ex-amada.

Do alto do monte, seguiu alinhado em passos lentos na direção do mar, na direção do precipício. A ventania cegava seus olhos. Ele chorava. A cada passo, uma luta. A cada luta, uma lembrança.

Já se esperava que as folhas de papel não resistissem em suas mãos. O vento impetuoso despedaçava as páginas e elas subiam em espiral, tragadas em turbilhão de dezenas de folhas brancas. Depois, extraordinariamente, se tornaram centenas, e depois milhares, e depois milhões de páginas escritas contando sua história, e também daqueles que cruzaram o seu caminho.

O ponto final era ali, sem lápis, caneta ou tinta. No último passo, Oswaldo despencou das alturas. Não se sabe o último pensamento que tivera. Talvez, os mais românticos sugerissem Valeriana. Sabe- se que ali, o vento nunca cessou.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Clarice de Nada e Ninguém



E nada passou a ocupar espaço
Perdeu o compasso para tudo
E o nada é quase mudo, contudo
Incomoda a roda torta

Nem sei mais que nada
Jorge me cantou e nada mais
Nem foi capaz de ficar de Ben
Que mal tem comer todo Alfajor?

E tudo ficou sobrando nas margens
Da linha acima à direita do Equador
Que tamanha dor andar sob o andor
Tamanha seria Clarice em cruz

Credo de papel e letra reduz
A fé que nem mais sei que serei
Nem tudo, nem nada conspirei
Pirei feliz, circunspecto à la Lispector

Poetizei o caos do todo nada e nadei
Nadica de todos os montes reis
Alegria também é palavra
É tudo ou nada que me crava.

                                                Casimiro de Abreu, 23 de maio de 2012

Os Ciquenta Tempos

 


Sara, Sara
Não vimos o tempo
Ele passa a cada momento
Não o vemos!

Juro, juro
Viver é bom, sabendo
O tempo é sábio
Mas nem sempre o vemos

Jussara, Jussara
 Onde nos metemos
Atravessando o milênio
Quadro a quadro?

Os relógios crédulos agem
Os anos, as horas,
Os minutos, os segundos
Os milésimos de tempo reagem

Não sentimos a rapidez
O amor apressado e torto
O sonho perdido e belo
O riso e o choro de embriaguez

Entorpecidos fiquemos
Pela vida agradecemos
A morte não esquecemos
Todavía, um novo dia celebremos

Mesmo refém de Cronos
Tu te colocas no teu trono
És rainha de nós tantos
Tens força, beleza e encantos

Por cinquenta anos te amamos
Por mais meio século esperamos
Por um  outro milênio sonhamos
Pela eternidade vivamos e voamos
              
                                           Casimiro de Abreu, 23 de maio de 2012

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O Sexo de Minh´Alma




Procura-se muito o nexo
Nem sempre se acha
Nem sempre se explica
Tanto o simples quanto o complexo

Não se esmiúça
Tudo aquilo que pulsa
A carne quente que expulsa
Suores, vapores, gemidos

Melhores são os corpos que latejam
Que fazem do sangue combustível
Maiores os corpos nus que se almejam
Todo o sexo visível ou impossível

Nesse sexo que eu quero o sexo
Por mim passa um besouro diferente
Vermelho, estranho, anoréxico
Tanto faz gente, besouro, vale o sexo

Eu, no topo da cidade verde
Sob o manto azul, omito o falo
O desejo rosa, amarelo, marrom ou negro
Secreções, odores, formigas exalo

E esse vento que me abraça
Esfria o corpo ardido em brasa
Suaviza a selva faminta e nua
Faz da rua sabedora, desconfiada

A pele ensopada de volúpia
Os pelos esmagados por titãs
Os músculos torturados e aflitos
Clamaram que não viesse a manhã

Sim, quero eu todo o sexo
Simples, tosco, amor, complexo
Noturno, solar, boreal, sem nexo
Corpos fundidos, espírito unido, completo

                                                                      Casimiro de Abreu, 21 de maio de 2012

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Ninas Evas Marias



Nina Simone tocou, cantou
O céu fechou, chorou
Toda a noite,
Toda fria,
Toda açoite!

Evinha entoou, lamentou
O dia raiou, passou
Todo sonolento,
Todo intento,
Todo tempo

Luiz me chamou, não cantou
Augusto sofreu, doeu
Maria caminhou, parou
Todo mar sozinho,
Em toda costa, menininho.

Nina não dá sinal,
Eva não dá resposta,
Maria nem aposta,
Luiz não gosta,
Augusto também.

Espero o trem da noite,
O sonho e a treva,
O frio me leva,
O calor me neva
O sol voltou e eu vou.

Casimiro de Abreu, 16 de maio de 2012, para o amigo Luiz Costa, com carinho!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A orquestra estrangulada




Sou fascinado por orquestra sinfônica. É um dos momentos mais sublimes da vida poder estar diante de uma orquestra e poder ouvi-la ao vivo. Minha cidade, Campos, tem uma bela orquestra. Uma raridade, pois não é pública, seus músicos não têm salário. Talvez, no máximo, ajuda de custo. Aliás, há outras orquestras coordenadas pela organização não governamental chamada "Orquestrando a Vida". O idealizador, Jony William, se inspirou no "El Sistema" venezuelano, movimento social magnífico que resgata crianças pobres e delinquentes por meio da música. Disseram que as orquestras vão parar. Estaria faltando apoio financeiro da iniciativa privada e do poder público municipal para a manutenção do projeto. E agora?

Admiro muito o desempenho de artistas para sobreviverem na área específica que atuam. Praticamente, todos passam pela sessão "pires na mão" várias vezes durante a carreira. Isto acontece em países ricos ou em desenvolvimento. Será que tem que ser sempre assim? Eu já quis ser pianista. Apesar de tocar o instrumento, nunca consegui ter disciplina e tempo suficientes para realizar o sonho de ser concertista. Depois, me aventurei no violino. Fui um dos primeiros alunos do Centro Cultura Musical de Campos, no início dos anos 1990, mas não fui muito longe. Tinha que pagar muitas contas pessoais e concluir a faculdade de jornalismo. Até deixei o cabelo crescer para ficar com aquela cara de maluco comum aos músicos, mas não avancei. Até para ser louco, é preciso ter competência e disciplina. Fui tratar de enlouquecer por outras vias (embora a música seja das melhores).

Em Campos, a Igreja de São Francisco (o santo católico pelo qual tenho mais simpatia) sediou o suposto último concerto da maravilhosa orquestra Mariuccia Iacovino (parece russa ou romena, mas ela é carioca, vejam no oráculo Google) que acompanhou o barítono Lício Bruno. O recital foi no dia 4 de maio, e uma sinfonia de Tchaicovsky marcou a despedida dos músicos (a maioria adolescentes). Não se sabe se para sempre a orquestra calou-se. Na ocasião, dirigentes da ong e um importante jornalista e poeta da cidade lamentaram à quantas andam o desenvolvimento artístico e cultural da cidade, uma das mais ricas do Brasil. Mais queixas que comemorações. Ao fim do concerto, muitos choraram de pena e impotência.

Nas redes sociais, pipocam manifestos contra e a favor do governo municipal por causa do suposto "abandono" do projeto social. Mais uma saia justa se vestiu e carapuças começaram  a aparecer. Creio que todos se constrangem no melhor e no pior sentido do verbo constranger. Farpas foram trocadas. Para quem gosta de fofoca, um prato cheio. Para quem defende a arte, a cultura e a educação como forma de transformação e esperança por dias melhores de vida, um novo desafio em participar ou não. Infelizmente, ainda não somos bem educados e politizados para brigarmos por questões sociais ou coletivas. Às vezes, caimos na esparrela de picuinhas partidárias e maniqueístas. Muito arriscado, mas como não correr riscos na vida e nas relações pessoais? Em Campos, então...

O que fazer quando governos não assumem as funções que julgamos que eles deveriam fazer? O que fazer quando os governos se isentam de fazer o que queremos que eles façam? O que fazer quando o terceiro setor (as chamadas organizações não governamentais) precisa de governos ou do dinheiro público para se manter? Parece contraditório ongs dependerem de governo, mas isto ainda é aprendizado no Brasil. O que fazer quando a iniciativa privada, as empresas e empresários não assumem o compromisso com a sociedade por meio da responsabilidade social? O que fazer quando empresários só visam lucro e que se dane o povo e a cultura? O que fazer quando as leis de incentivo à cultura com isenções ou diminuições de carga tributária não parecem ser atraentes ou suficientes?  O que fazer com o brutal número de impostos que somos "obrigados a pagar ou a sonegar?" O que fazer para sobreviver em um país cada vez mais caro para comer, vestir, se locomover, morar e estudar? O que fazer se planos de saúde e sistema único de saúde se equivalem e adoecemos sem médicos e remédios? O que fazer para votarmos conscientes ou deixarmos de eleger inconscientes? O que fazer para não sermos demonizados e nem sermos elevados aos céus sem merecimento? O que fazer quando o povo não se interessa por nada disso?

São muitas as perguntas. São muitas as carências. São muitas as tristezas. São muitas as frustrações. São muitas as incertezas.

The show must go on! Há tempos, este é um bordão no meio artístico. O espetáculo tem que seguir. O show não pode parar. Como é possível? Nem sempre sabemos. Arte é vida. Se uma vida é interrompida, outras vidas seguem em frente, precisam seguir. Se não seguimos, alguém dá seu jeito, criando oportunidades e possibilidades de continuar adiante. Creio que os competentes mestres e aprendizes do Orquestrando a Vida, donos do talento maravilhoso que já foi aplaudido na Bolívia, Argentina e Estados Unidos, terão que descobrir. Todos conseguirão. Todos nós conseguiremos. Faço votos. Sem trocadilhos.






domingo, 29 de abril de 2012

As cinco meninas negras




Entre milhares de corpos na passarela do samba e arquibancadas do carnaval, nenhum outro chamava mais  a atenção do que aquele corpo a poucos centímetros de distância.  Onofre nem gostava de carnaval, mas por causa de Fran (que suspirava) foi assistir aos desfiles naquele abril. Sim, isto mesmo. No Brasil, carnaval pode ser feito em qualquer dia de qualquer mês. Basta querer. Devia ser assim também para natal, páscoa, finados e outros feriados replicados. Nem sempre querer é poder. Ele desejava orgasmos com aquele corpo.

O lugar era lindo. A noite nem parecia existir, era tanta luz que a visão ofuscava. Onofre, meio neurótico, meio polianista, ficou procurando o lado bom de fazer aquilo que não estava tão a fim de fazer. O corpo de Fran, ao final do sacrifício poderia ser seu, e assim, cheio de desejo, gozaria as delícias que idealizara antes de seguir para o templo apoteótico e carnavalesco. Iludiu-se. As horas passavam no mesmo ritmo e compasso que as decadentes agremiações. Tudo se arrastava. Sua libido começou a perder forças para o Momo de Fran. O sono e o tédio se instalaram nele.

Enquanto carros alegóricos capengas eram empurrados na avenida carregando destaques de modelos e artistas caricatos, cordões de fantasias duvidosas eram expostas ao público. O carnaval é mesmo um cenário para exibição de toda sorte, oportunidade rara para as pessoas se sentirem olhadas, importantes, admiradas, invejadas e alvejadas pelo escárnio. Não sei o que fazia ali, mas a filosofia e loucura de quase sempre rondaram a cabeça. Daí, os corpos equivocados ou semidesnudados, e o corpo de Fran amenizaram, perderam interesse. A gente muda todo tempo. Ficou pensando como escapar dali. Não era tão fácil voltar para a casa e para o silêncio.

Fiquei observando em volta. Observei Onofre. Observei Fran. Observei centenas, milhares de rostos comuns e incomuns. A maioria, talvez, nunca mais os revisse. A batucada, as vozes potentes dos intérpretes, o contágio do ritmo da bateria, as bebidas alcoólicas ingeridas, os cigarros de tabaco visiveis, os narcóticos e entorpecentes invisiveis a olho nu, a euforia no ar, o sexo carnavalizado e entranhado nas paredes e assentos de concreto, os homens e mulheres feios, os homens e mulheres desejáveis, os travestis e pobres descontrolados dando vexame e motivos para gargalhadas, o sono fisgando e cerrando olho e pálpebra, uma confusão interna, sabe Deus.

Foi quando percebi uma mulher negra sentada em um dos degraus. Parecia bonita, ancas largas, pele lisa e aveludada revelada nas costas à mostra onde o vestido permitiu. Não vi seu rosto de frente, apenas de perfil. Com ela, havia cinco meninas, uma mais linda que a outra. As três mais velhas deveriam ter doze, nove e quatro anos, respectivamente. As outras, três anos e um ano de vida. A mãe de todas era bela, e quando inclinou-se para colocar uma das filhas para dormir em plena batucada, vi que estava grávida de outra criança. Seria outra menina?

As duas irmãs mais velhas sambavam como ninguém. Onde aprenderam? Talvez, não fosse possível aprender a dançar como elas, tão espontâneas e genuínas. Elas mexiam com os quadris, gingavam os corpinhos, e a menor do par, tinha movimentos com os braços e as mãos que anunciavam: "sou uma estrela, famosa e feliz". Certamente, eram bem pobres e privadas daquilo que chamamos "vida boa, segura e confortável". Por um momento, pensei onde estaria o pai ou os pais das cinco meninas negras. Será que ele ou eles, estaria ou estariam desfilando no carnaval? Acabei esquecendo de mim, de Onofre, de Fran, da cidade inteira. Não houve imagem mais bela daquela festa, a não ser a mãe e suas cinco meninas negras.
É provável que tudo isso seja esquecido. Não sei se a gente deve lembrar por lembrar, nem esquecer por esquecer.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Cri-cri Gostoso Gostosa




Mega-Sena
    Meg encena!
           Que cena!


Acena da janela
      Acena da caravela
              Acena pra matusquela!


Que é esta
      Maga, modesta
            Menina de festas?

Atina o papo,
      Sufoca supapo,
              Sacode o sapo!

Mas que tudo
   Essa mulher-mundo
        de megas, mares profundos!

Desamarga,
     Margareth
         Ao som do sax-trumpete

Por que não canta,
     Desencanta essa canção
              Além-bossa, só nossa?!

para Margareth Bravo, de Ocinei Trindade, Rio, 14 de março e 2009, com amor, Nei

Estradas e Estradas




Por um caminho
Eu vim,
Sei e nem sei de mim.
Quem sabe?

Minha cabeça
É feita de estradas,
Debaixo da mesa,
Inusitada!

Viajo à beça,
Naquela ou nessa,
Nem sempre fico,
Modifico.

Asfalto e perigo,
Corro todos os riscos.
Nem sempre te digo,
Mas eu tenho amor e sigo!